O executivo taiwanês fala sobre como tornou sua empresa relevante, na primeira entrevista para a América Latina, Jonney Shih, 59 anos, engenheiro e presidente da Asus.Jonney Shih não é um nome conhecido. Mas todo mundo já ouviu falar de netbook, aqueles computadores pequenos feitos sob medida para levar por aí e navegar na internet. O que uma coisa tem a ver com a outra? Shih foi o cara que inventou esse aparelho, hoje um padrão no mercado mundial.
A contribuição de Shih não para aí. À frente da taiwanesa Asus, ele é um dos nomes que tem mudado a forma como os produtos Made in Taiwan são vistos pelo consumidor. Conseguiu transformar o país (que a China considera uma província renegada) de fabricante de aparelhos genéricos em potência tecnológica.
A entrevista, primeira que ele dá a um jornalista da América Latina, estava marcada para começar às 16h e terminar 20 minutos depois, no estande da Asus na edição deste ano da Consumer Electronics Show (CES), em Las Vegas. Shih chegou às 15h. E ficou circulando pela feira, franzino, baixinho, de gestos contidos, de olho nas reações dos consumidores, acompanhando a movimentação, vendo o movimento.
O papo foi precedido de práticas comuns quando o assunto é falar com um executivo de uma grande empresa: antes do encontro, as perguntas tiveram que ser pré-aprovadas e todo o chato protocolo corporativo teve de ser seguido.
Era desanimador. Esse rapapé todo costuma anteceder conversas genéricas. Depois de um tempo cobrindo tecnologia, é inevitável adquirir um certo faro para detectar quando um executivo apenas repete a cartilha corporativa, cheia de jargões empresariais e frases feitas. Fica cada vez mais simples filtrar todo o blablablá e separar o que realmente importa – às vezes, nada. Com Shih, foi diferente.
Falando calmamente, com polidez extrema e uma boa dose de convicção, ele começou a conversa em um inglês bem correto. E em poucos minutos já havia citado filosofia chinesa, filosofia japonesa, intersecções entre as duas, Confúcio e artes marciais. E deixou claro que adora o que faz e é louco pela área em que atua.
“Se você não entrega o que promete, as ideias não passam de slogans. E só prospera a longo prazo quem entrega exatamente o que o consumidor espera”, disse para explicar como transformou a Asus em referencial de excelência. Em vez de oferecer produtos descartáveis baratos, Shih optou por lançar aparelhos com preço mediano, para encontrar o equilíbrio entre a excelência e as vendas.
E, assim, os 20 minutos de entrevista viraram 45, à medida em que Shih empolgava-se ao contar suas histórias. “Lembro quando fui a uma apresentação do Pentium 4, na Intel. O design tinha um problema térmico. Mostrei para os engenheiros que isso era um risco, desenhando em uma lousa. O processador foi para o mercado e teve problemas, mas a equipe aprendeu com os erros e desenvolveu o bem-sucedido Centrino.”
O próprio conceito do Eee PC partiu de Shih, que imaginou que um PC portátil não tinha que ser grande e poderoso. Precisava apenas ser um meio termo entre preço e usabilidade. “No começo, chamavam o Eee de ‘PC do Jonney’”, diverte-se. “Vieram com um monte de siglas que não soavam bem. E aí eu criei o conceito do Eee (sigla que significa, fácil de estudar, trabalhar e brincar).” E foi assim que, sozinha, a empresa criou uma nova categoria de produtos. E isso porque muita gente achava que netbook era só um brinquedo, uma piada hi-tech.
Não era piada. Mas Shih tem motivo para rir o quanto quiser vendo as outras empresas correrem atrás para fazer seus modelos de netbook. Seria ele um Akio Morita, fundador da Sony, do terceiro milênio? Cabe ao tempo responder.